Confissões de Uma Germofóbica em Tempos de COVID-19


* Por Karina Gols



Finalmente me entendem. Eu frequentemente passava álcool gel nas mãos, corria para lavá-las assim que chegava em casa, cobria meus dedos com a manga dos casacos ao apertar um botão de elevador e passava por um inimaginável suplício quando precisava tocar algum objeto desconhecido.


Alguns me chamavam de germofóbica e, com o tempo, eu mesma adotei o título e comecei a me apresentar assim, a fim de explicar porque eu era obcecada com assepsia, especificamente das mãos.


O mais interessante é que, ao contrário do que pode parecer, não sou dessas maníacas por limpeza e disciplina. Sou desorganizada. Bastante. Eufemismo para bagunceira mesmo.


Meu escritório sempre exibe entulhados sobre a escrivaninha livros, pilhas e pilhas de cadernos, folhetos antigos, remédios com validade vencida, além de coisas que alguém com a mente mais criativa desse mundo jamais desconfiaria.


Minha mesa de cabeceira é ainda pior e destoa do resto do quarto, principalmente quando comparada à mesinha do meu marido, toda em ordem.


Lá você encontra de tudo um pouco. Bijuteria espalhada por todo canto, produtos de maquiagem, pelo menos umas cinco latinhas de Diet Coke - muitas delas vazias - cremes, remédios, quer dizer, muitos remédios, inclusive meu querido Afrin, substituto do bom e velho Adnax que me socorria às noites no Brasil. Além de livros, claro. E uma gaveta que esconde um portal para outra dimensão de tanta coisa que lá cabe. Enfim, a lista é tão longa que daria a volta ao redor do planeta duas vezes.


Mas as mãos? As minhas mãos sempre foram foco de angústia até eu limpá-las completamente.


Nesses dias de quarentena aprendi com vídeos na internet a lavar áreas das palmas e dígitos em locais que mal imaginava que existiam.


Pois esses esconderijos existem sim, e, desde então, lá vou eu, esfregando cada dedo, o espaço entre o polegar e o indicador, ensaboando o dorso da mão e cantando "Parabéns pra Você" ao menos duas vezes, tempo necessário para terminar de vez com qualquer famigerado virus.


Antes eu costumava a desafinar apenas durante "The ABC Song", como uma comissária americana me ensinou durante um vôo, há muitos anos. Mas agora estou virando a craque da água e sabão.


Bandeja de avião? Morria de nojo, mas ficava envergonhada de limpar na frente dos outros. Meus acompanhantes de bordo sempre me garantiam que, entre um vôo e outro, o avião passava por um processo de higienização. Santa ingenuidade.


Então eu me reservava apenas a me lambuzar com meu discreto porém potente álcool gel antes das refeições.


Quando leio sobre a longevidade do Coronavírus em superfícies, tenho vontade de gritar para que o mundo inteiro me escute: “Estão vendo? Eu tinha razão! É isso que sempre se passava na minha cabeça e vocês se recusavam a entender!”


Mas de que adiantaria vociferar agora?


Pelo menos, durante a pandemia atual, há um novo e delicioso sentimento brotando dentro de mim, que me acalma profundamente. A de ser, finalmente, compreendida.


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* Karina Gols é profissional de Comunicação Internacional, reside na Califórnia, trabalhou em gigantes como a Petrobras e o YouTube (Google), gosta de manter o bom humor e está em quarentena há uma semana. Começou mais cedo que o necessário. Mas estão vendo? Eu tinha razão! ;-)


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