Na Alemanha, cantava Caetano





* Por Sheila Stiller


Naquele dia, Caetano soava pela casa. O tempo lá fora era cinza e uma chuvinha de primavera arrependida salpicava o solo colorido. A alma dançava e minha alegria queria atravessar o mar e ancorar na minha Bahia. Beijar meus entes amados e distribuir abraços aos amigos queridos. Eu não estava triste. Era saudade o que me consumia.


Saudade esta que se perpetua até os dias de hoje, quando de fato não sabemos como será o nosso amanhã. Parece ser a hora de passarmos a cultivar as despedidas longas, os beijos carinhosos, as palavras gratas. No entanto, o maior incômodo é a constância do “se”. Se eu tivesse feito isso, se eu soubesse que aquilo iria acontecer, se eu estivesse aí agora, se eu pudesse…


Então é por estarmos vivendo em estado de COVID-19 que devemos mudar a nossa forma de tratar, aliás esse vírus é somente um modo mais fatal de informar que talvez não haja um depois e agora é a chance que temos de fazer diferente.


Por isso beije mais, brigue menos. Distribua mais flores e menos pedras. Fale de seus sentimentos, de seus amores, esqueça suas dores e viva. Viva sem rancores, aproveite cada momento e respire com olhos fechados para sugar e sentir cada partícula que enche seu peito de vida. Nunca é tarde para ser feliz e até com a tristeza aprendemos a valorizar a felicidade.


Parece fácil. Tento me corrigir e eu me arrependo ao fraquejar. Porém sigo tentando, afinal, cada amanhecer oferece a chance de recomeçar. Disso estamos precisando: de recomeços. De fazer melhor pelo nosso planeta, nossos filhos, nossa humanidade.


Voltando ao Caetano e toda minha saudade, eu apelei em seguida para Chiclete com Banana para mudar o ritmo de meus sentimentos. E munida de chiclete na boca e no rádio, botei minha filha no carro e fui buscar meu outro filho na escola, pois prefiro evitar que eles peguem ônibus.


O som rolava, eu balançava meu corpo por trás do volante, lá fora chovia, e os meus filhos me olhavam sem emoção alguma. Tentei relatar como eram os meus carnavais em Salvador e ninguém se interessava pelo meu passado, pela minha vida. Eu era alí somente a mãe, a motorista, a cozinheira, a enfermeira e muitas vezes a psicóloga. Mas nenhum filho quer ver a mãe pulando como pipoca atrás do trio elétrico. Aliás, com essa paisagem chuvosa de fim de mundo, essa música até destoava.



Eu, indiferente a tamanha indiferença, continuava viajando no passado e na maionese. Meus filhos adolescentes e estrangeiros em minha cultura, puseram seus fones de ouvidos e se isolaram em seus mundos de hip-hop, enquanto eu caía no reggae.


Moro na Alemanha há 25 anos, amo viver aqui, mas meu passado é baiano. Ele vive de Caetano, Bossa nova e Axé. Cozinho feijão, moqueca e ensopado com chuchú. Falo e escrevo alemão, mas meus textos e minha emoções se manifestam em autêntico e inconfundível português.


Como pode ser um coração tão vagabundo? Por que não posso me decidir por um mundo só? Sou literalmente a Dona Flor com dois maridos tão distintos. O Brasil é o Vadinho, carnavalesco, irresponsável, festeiro, mas com um fascinante carisma. É como mergulhar na alegria e bailar no fogo da paixão. A Alemanha é sem dúvida o Dr. Teodoro, correto, preciso, estável e previsível, a vida que todo mundo pediu a Deus. Seria completamente feliz se não tivesse tido um passado com o Brasil. Com esses sentimentos ambíguos e saudosos passei o dia em companhia de uma alma oscilante.


Muita gente quer morar no exterior. Admito que tenho uma vida muito feliz, porém abdicamos de muita coisa importante, deixamos para trás a nossa base, as nossas raízes.


Durante a COVID-19 é muito prático viver na Alemanha. Aqui o sistema de saúde funciona com perfeição, temos UTIs suficientes, disciplina e um governo preocupado com a população. As pessoas respeitaram o isolamento e agora, pouco a pouco, os estabelecimentos estão voltando a funcionar.


O meu filho, por exemplo, já retornou à escola enquanto minha filha ainda está em casa. Eu trabalho em companhia aérea e não sei quando retornaremos às atividades normais. Meu marido trabalha agora somente três vezes na semana. Vai uma vez para o escritório e nos outros dois dias trabalha em casa.




Claro que ganhamos menos e meu esposo se preocupa muito com isso, mas em mim prevalece a consciência brasileira -- aquela que fala que vai dar certo, que existe coisa pior, que para tudo tem um jeito, que depois da tempestade vem a bonança e que o mais importante é estarmos vivos e juntos. O confiar do brasileiro aliado ao pragmatismo do alemão pode ser uma bênção ou uma maldição. Nós optamos pela bênção eterna com dias amaldiçoados.


Viver no estrangeiro significa que ninguém conhece sua história. Eu vejo em muitos casais daqui uma cumplicidade do passado, de músicas, filmes, programas, nomes. A nossa cumplicidade teve que ser inventada de outra forma, com outros meios. O meu marido não conhece minhas músicas, nem meus programas favoritos, não sabe dançar e muito menos requebrar.


Quando a saudade bate no peito, não é ele que compreende essa nostalgia. Nem tem como compreender, pois só quem mora ou morou fora de seu país natal sabe o que é sentir esse vazio de repente, esse amanhecer com Caetano. Eu não quero voltar para o Brasil, mas o Brasil sempre volta para mim.


Viver esse momento tão emocional, sem saber quando vou poder abraçar os meus pais, o meu irmão, meus amigos, sem poder compartilhar e ser entendida, faz parte desses dias amaldiçoados em uma relação abençoada.


Resolvi entrar em contato com uma antiga amiga do Brasil, dos meus velhos tempos, e criamos um imenso grupo no WhatsApp. Passei a noite toda escrevendo, relembrando, rindo, chorando e finalmente me sentido compreendida. Fui dormir às quatro da manhã com o coração leve e a alma saltitante. No dia seguinte nem precisei de Caetano ou do Chiclete para levantar pulando como os Novos Baianos.


Foi tanta emoção e inspiração, que escrevi três textos em dois dias e o quarto ficou na memória. Voltei ao passado, dancei nos carnavais, bati papos-cabeça e quando voltei à realidade e minha vida, descobri que, mesmo assim, sou uma pessoa feliz.



O meu passado não morreu, ele vive nos meus textos, na minha melancolia quando escrevo, nas minha palavras internas, nos meus desabafos. Toda cumplicidade divido com as palavras, por isso preciso escrever. É o meu modo de contar para mim mesma às histórias que habitam o meu peito. Somente extravasando minha baianidade em textos, consigo balancear a pessoa que vive por detrás deste contexto.


Assim os anos vão passando, dias com Caetano na cabeça e chiclete no gingado, enquanto envelheço na estabilidade das músicas clássicas. Minhas palavras se tornam sóbrias. E os meus textos, sombras de um passado.



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* Sheila Stiller nasceu em 1973, em Salvador, Bahia e mora há 25 anos na Alemanha. Estudou Letras na Universidade Johannes Gutenberg, em Mainz, e trabalha na área de aviação desde 1999. A autora começou a escrever durante sua infância e resolveu começar a postar seus textos em 2016, na página de Facebook intitulada Cidadã do Mundo (https://www.facebook.com/contosvssonhos). Preocupada com a integração das brasileiras na Alemanha, Stiller fundou o grupo Papo Aberto em Frankfurt, com a finalidade de empoderar e incentivar as mulheres no país. Casada há 18 anos, tem dois filhos provenientes desta relação. Seu maior sonho é criar um café literário brasileiro em sua cidade, para mostrar aos alemães as riquezas de sua terra natal.

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